Acreditar convictamente em algo que não é verdade ajuda a deixar escapar pistas que podem desmascarar as pessoas: perceber a falsidade cria a autofalsidade, se a pessoa acredita na mentira.

A ideia é que um gene-egoista da evolução nos leva a maximizar o sucesso das relações sociais por meio da astúcia e da mentira. Sem esquecer que outras pessoas também podem usar a mesma estratégia, o que implica estar completamente atento às falsidades. Com isso, nossa capacidade de descobrir o engodo evoluiu, levando-nos a uma queda de braço entre falsidade e percepção da falsidade.

Ao que tudo indica, agir falsamente dá uma ligeira vantagem sobre o perceber a falsidade se as relações interpessoais são raras e entre estranhos. Como observa Trivers:

[...] quando as interações pessoais são anônimas ou pouco frequentes, as pistas comportamentais não podem ser lidas sob a ótica de comportamentos conhecidos, é preciso utilizar características mais gerais da mentira.

O teórico evolucionista identifica três atributos da mentira:

1) “Nervosismo” – as consequências negativas de poder ser descoberto, incluindo ser posto em xeque, normalmente, deixam as pessoas mais nervosas;

2) “Controle” – a preocupação de parecer nervoso, levam as pessoas a querer se controlar, com possíveis efeitos colaterais detectáveis como uma impressão planejada e ensaiada;

3) Carga cognitiva – a mentira implica uma grande demanda cognitiva para esconder a verdade, construir uma história falsa com ar verossímil, contá-la de forma convincente e se lembrar dela para não cair em contradição.

Segundo Trivers (2011), “na ausência de mentiras bem ensaiadas, os mentirosos precisam pensar muito e isso provoca vários efeitos”, como o controle excessivo que leva a piscar e a gesticular menos, fazer pausas mais longas e elevar o timbre da voz.

[A lógica da mentira e autofalsidade, extraída do novo livro do teórico evolucionário Robert Trivers “The Folly of Fools” (Basic Books, 2011)]