Vivemos em tempos de excesso – de imagens, de opiniões, de estímulos. Mas também de escassez: de pausa, de pensamento, de julgamento.

Esta é uma proposta de reflexão urgente sobre como a passividade e o automatismo moldam nossas ações (ou omissões) diante do sofrimento alheio, da injustiça e da banalização do mal.

Velocidade, intuição, superficialidade

A reflexão encontra hoje um inimigo silencioso: a hiperestimulação. Somos cada vez mais guiados pelo pensamento rápido, intuitivo, superficial. Mídias sociais e algoritmos nos mantêm ocupados demais para o pensamento lento, crítico, reflexivo – justamente o que poderia nos proteger da manipulação e da indiferença.

Imagens de guerra e dor, quando repetidas sem contexto, não nos tornam mais empáticos – apenas mais insensíveis. O que antes nos chocava, hoje se torna conteúdo de rolagem. A compaixão se esgota e nem toda vida é percebida como vida. Algumas perdas simplesmente não importam no mundo digital guiado por likes.

Anestesia generalizada

A falta de reflexão não é só uma falha pessoal – é também um projeto político. Quanto mais distraído, exausto e saturado está o cidadão, mais governável ele se torna. O desinteresse se ensina em casa, na mídia, nas conversas que evitam o desconforto. A sensibilidade, que deveria ser cultivada, é sufocada pela rotina e pelos algoritmos.

Diante da anestesia generalizada, um gesto radical necessário é parar para pensar. Retomar o julgamento ético. Escapar da lógica do clique. Lembrar que a crítica, a empatia e o desconforto são partes essenciais de uma vida ética. Pensar, é um ato de resistência íntima – uma maneira de recuperar o sentido diante de um mundo que tenta nos automatizar

Este não é um convite à nostalgia ou ao moralismo. É um chamado à lucidez. Pensar não é um luxo — é uma necessidade urgente. Porque, se continuarmos observando o mundo como meros espectadores, pode chegar o dia em que ninguém mais conseguirá se levantar.

[Repercutindo o pensamento do professor Barreiro-Laredo, no ensaio
“Mirar sin ver: violencia, silencio y desensibilización en el ‘soma’ digital”
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El Pais, 26/06/2025. Ilustração: Distopía 21]