Cultivar a gratidão pode contribuir para uma vida melhor
Um estudo internacional, realizado com mais de 10 mil participantes de 34 países e publicado na revista científica PNAS, da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, avaliou diferentes maneiras de estimular o sentimento de gratidão. No Brasil, participaram 598 voluntários. Os pesquisadores testaram seis estratégias e compararam seus efeitos com atividades que não tinham como objetivo despertar gratidão.
O resultado mais interessante foi que nem todas as formas de praticar a gratidão produziram o mesmo efeito. A estratégia que apresentou maior impacto foi escrever e enviar uma mensagem de apreço a alguém a quem se é grato. Já a prática mais conhecida – fazer simplesmente uma lista de cinco coisas pelas quais se agradece — foi a que apresentou menor efeito entre as intervenções estudadas. Também foram testadas cartas de gratidão que não eram enviadas, exercícios de reflexão sobre o que recebemos e oferecemos aos outros, lembranças acompanhadas da imaginação de como seria a vida sem aquilo e cartas dirigidas a Deus ou a uma força superior.
Emoções positivas
As seis práticas, entretanto, produziram resultados melhores que as atividades de controle. Os participantes apresentaram aumento de emoções positivas, maior satisfação com a vida e otimismo, além de redução de emoções negativas e do sentimento de inveja. Houve também aumento da percepção de reciprocidade e de conexão social.
Há, porém, uma ressalva importante: o efeito da gratidão não foi igual em todos os lugares. O impacto foi maior no México, quase nulo na Noruega e intermediário no Brasil. Características culturais, como a flexibilidade das normas sociais, a aceitação das desigualdades hierárquicas e a religiosidade, parecem influenciar a maneira como as pessoas respondem a essas práticas. O sentimento positivo, contudo, esteve entre os efeitos mais universais observados.
A explicação pode estar no caráter essencialmente social da gratidão. Agradecer é mais que apenas reconhecer que recebemos algo. O sentimento pode aumentar nossa disposição para ajudar outras pessoas – inclusive pessoas que não foram responsáveis pelo benefício que recebemos. Dessa maneira, a gratidão pode favorecer uma cadeia de comportamentos cooperativos, sem que exista necessariamente uma expectativa de recompensa direta.
A boa razão para agradecer
Isso ajuda a compreender por que um simples “obrigado” pode ter um significado maior do que imaginamos. Ele pode expressar reconhecimento, fortalecer vínculos e estimular a reciprocidade. Ao mesmo tempo, a pesquisa lembra que gratidão não deve ser confundida com uma obrigação de retribuir. Há situações em que receber algo provoca, junto com a satisfação, a sensação de estar em dívida.
Talvez por isso a prática mais eficaz encontrada pelo estudo seja tão simples e, ao mesmo tempo, tão humana: dizer a alguém que somos gratos. Não basta reconhecer internamente o que recebemos. Quando transformamos esse reconhecimento em palavra e o dirigimos a outra pessoa, a gratidão deixa de ser apenas um estado individual e passa a participar da construção das relações.
A pesquisa mostra, portanto, que cultivar a gratidão pode contribuir para uma vida psicológica mais positiva e para vínculos sociais mais fortes. Mas também ensina que não existe uma fórmula universal. A maneira como agradecemos, o contexto cultural e a qualidade da experiência parecem importar tanto quanto o próprio sentimento.
Talvez seja uma boa razão para, de vez em quando, interromper a pressa cotidiana e perguntar: a quem devemos um agradecimento que ainda não dissemos?
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Saiba mais, neste artigo
A multinational megastudy of the effects of gratitude practices on subjective well-being












