A felicidade é algo que se pode aprender, desenvolver, treinar, manter em forma; não é necessário ser um monge para alcançá-la

Cientistas da Universidade de Wisconsin estudam há anos o cérebro do monge (antes biólogo francês) Matthieu Ricard, atualmente com 64 anos, assessor pessoal do Dalai Lama (monastério nepalês de Shechen, Tibet), submetendo-o a constantes ressonancias magnéticas nucleares, em sessões regulares de até três horas de duração. Em 2008, seu cérebro ficou conectado a mais de 250 sensores que detectaram seus níveis de estresse, irritabilidade, enfado, prazer, satisfação e tantas outras dezenas de sensações diferentes.

Matthieu Ricard, o homem mais feliz do mundo
[Foto de Neema Frederic, 2010]

Os resultados, comparados com os obtidos em centenas de voluntários cuja felicidade foi classificada em níveis que iam de 0,3 (muito infeliz) a -0,3 (muito feliz), mostraram que Matthieu Ricard alcançou - 0,5 e superou os limites previstos no trabalho do psiquiatra estadunidense Richard J. Davidson (e todos os registros anteriores), do Laboratório de Neurociência Afetiva da referida Universidade, fazendo jus ao título de o homem mais feliz do mundo – honra não aceita pelo monge, por modéstia. Este limitou-se a ressaltar que apenas as “emoções positivas” produzidas por seu cérebro é que estariam mais “distantes dos parâmetros normais”

Se quiser conhecer o pensamento de Matthieu Ricard e só carregar os vídeos do YouTube sobre Hábitos da Felicidade, em três partes, imperdíveis. Legendas em português.

O trabalho sobre a felicidade, realizado por Davidson e cols. (2004), baseia-se na teoria de que a mente é um órgão em constante evolução e, portanto, moldável, devido à sua “plasticidade”. De fato, diversos cientistas já confirmaram que no córtex cerebral esquerdo processam-se as sensações prazeirosas, enquanto do lado direito se juntam aquelas que motivam a depressão, a ansiedade e o medo, entre outras. “A relação entre o córtex esquerdo e o direito do cérebro pode ser medida e a relação entre ambas serve para representar o temperamento de uma pessoa”, como assegura o monge Matthieu, que durante seus exames de ressonância mostrou atividade inusual no lado esquerdo.

Por outro lado, os neurocientistas estadunidenses da equipe de Davidson (2004) não acreditam na casualidade dos resultados, pois os maiores registros de felicidade sempre foram detectados em monges budistas que, diariamente, praticam a meditação. Para o “homem mais feliz do mundo” isso se explica pela capacidade dos religiosos de explorar essa “plasticidade da mente” para afastar os pensamentos negativos e concentrar-se só nos positivos.

A idéia por traz deste conceito é que a felicidade é algo que se pode aprender, desenvolver, treinar, manter em forma e, o que é mais improvável, alcançar definitivamente e sem condições.

Apesar de tudo, não é necessário ser um monge para alcançar a felicidade – lembra Matthieu Ricard – mas tão somente nos contentarmos com o que a vida nos oferece:

Velhice – quando as agudeza mental e a ação diminuem, é tempo de experimentar e manifestar carinho, afeto, amor e compreensão.

Morte – faz parte da vida; rebelar-se é ir contra a própria naturezxa da existência. Só há um caminho: aceitá-la.

Solidão – existe uma maneira de não se sentir abandonado: perceber a todas as pessoas como parte de nossa família.

Alegria – está dentro de cada um de nós; só há que olhar em nosso interior, encontrá-la e transmiti-la.

Identidade – não é a imagem que temos de nós mesmos, nem a que projetamos; é nossa natureza mais profunda, essa que nos faz ser bons e carinhosos com quem nos rodeia.

Conflitos – é mais difícil lutar com alguém que não busca a confrontação.

Família – requer o esforço constante de cada um de seus membros: sermos generosos e reduzir nosso nível de exigência.

Deterioração física – tem que aprender a valorizá-la positivamente; vê-la como o princípio de uma nova vida e não como o princípio do fim.

Relações sociais – é mais fácil estar de bom humor que discutir e entediar-se. O ideal é seguir sendo como somos e utilizar (sempre que pudermos) a franqueza e a amabilidade.

Felicidade – se a buscamos no lugar equivocado, estaremos convencidos de que ela não existe, quando não a encontrarmos ali. (Matthieu Ricard, 2010)

Para saber como treinar sua mente para a felicidade e conhecer a sabedoria do Budismo Tibetano visite o site Training the mind com sugestões do Dalai Lama e Matthieu Ricard.

QUATRO HABILIDADES NEURAIS PARA SER FELIZ

O bem-estar psicológico não é um estado que se atinge, segundo Richard J. Davidson, mas uma habilidade que se desenvolve. É uma mudança de paradigma interessante, porque implica que, se alguém pratica, pode desenvolver essa habilidade.

A chave, segundo conclusões científicas de Davidson, está em estimular quatro habilidades que estão na base (e enraizadas) nos circuitos neurais. Ao fortalecer esses circuitos, o bem-estar será alcançado:

Resiliência
Num mundo impermanente, em contínua mudança, coisas desagradáveis nos acontecem. Nem sempre podemos evitá-las, mas sempre podemos mudar a maneira como reagimos a elas.

A resiliência é a capacidade de se recuperar da adversidade e emergir fortalecida dessa experiência. Está relacionada ao “não-apego”, porque implica a capacidade de fluir e não ficar preso nessas experiências negativas.

Perspectiva positiva
A segunda chave para o bem-estar é a perspectiva. É sobre a capacidade de ver coisas positivas, mesmo no meio da tempestade; a capacidade de desfrutar de experiências positivas e de perceber os outros com bondade.

Mesmo as pessoas que sofrem de depressão mostram uma ativação no circuito cerebral subjacente à perspectiva positiva. O problema é que essa ativação é muito fugaz, não dura o suficiente para melhorar o humor. A prática da meditação e da compaixão pode alterar rapidamente essa situação.

Atenção total
A capacidade de guiar suavemente a atenção para o presente é uma das chaves para o bem-estar. Não só permite prestar atenção ao que estamos fazendo, mas também ajuda a apreciar os pequenos detalhes e a sermos relaxados.

As pessoas gastam 47% de suas vidas sem prestar atenção ao que estão fazendo. E o pior de tudo é que vagar sem rumo mental está associado a um estado de infelicidade e insatisfação.

Generosidade
Muitas pesquisas tem mostrado que há mais prazer em dar do que em receber. Comportamentos generoso e altruísta realmente ativam circuitos no cérebro, que são fundamentais para o bem-estar.

Ser generoso e ajudar os outros rapidamente gera um estado de bem-estar, equilíbrio mental e felicidade.

Então, exercite a habilidade de ser feliz! Já!