Certa vez, na minha juventude, me aproximei de um dervixe na esperança de tê-lo como mestre espiritual, coisa dos anos 1970, mas ele se recusou. Falou que não era assim que acontecia: “É preciso que mestre e discípulo estejam prontos”.

Depois de várias tentativas de mostrar que eu estava pronto, finalmente, um dia ele me visitou na Rádio Cultura de Poços de Caldas, quando terminava a locução noturna. Irrompeu no estúdio ainda com o microfone ligado e colocou sobre a mesa um guardanapo de papel, um pedaço triangular de pizza e um copo de café que consumi de imediato, enquanto tocava a última música da noite, agradecido por sua gentileza.

Com a sobra do café e um palito de fósforo estilizou uma rosa no guardanapo e me surpreendeu e ao sonoplasta, dizendo, no ar (com empostação e sotaque oriental), para anotar:

Hoje acabamos aqui. Leve essa rosa até a outra margem do pântano e não a deixe cair, nem olhe para trás, até atravessar o deserto. Não importa que Você se suje ou se canse de tanto desconforto e sofrimento; não pare e mantenha a rosa no alto e protegida.

“Se for impecável vai descobrir que seu mestre é Você mesmo que fala de dentro. Preste muita atenção no que ele diz que Você acha que é para os outros, pois é Você mesmo quem precisa ouvir. Você tem um mestre que nunca vai abandoná-lo. só precisa sintonizá-lo.

Depois dessa noite fria de inverno, minha vida mudou mesmo. Dias depois, fui despedido (por usar o microfone para para ir contra uma açao predatória do patrimônio público), e encontrei vários pântanos e desertos e vou vencendo-os, mas aquele dervixe nunca mais eu o vi e nem sua aparência ficou nítida na memória.

Não fosse o pedaço de papel que registrou aquele momento, não saberia dizer se estivera sonhando com o discípulo do pântano ou se era o discípulo do pântano sonhando comigo. Hoje eu sei que sou ambos e ainda sinto o sabor do café do Bar Ao Ponto com a pizza de um queijo só.