O Homem convida as suas próprias calamidades e depois protesta contra os hóspedes inoportunos, por se haver esquecido quando e como escreveu e enviou os convites.

O raio jamais feriria a casa se a casa não o atraísse. A casa é tão responsável pela sua ruína quanto o raio.

Um touro jamais chifra um homem se o homem não o convidar a chifrá-lo. E, na verdade, aquele homem deve responder mais pelo seu sangue do que o boi.

O assassinado afia o punhal do assassino e ambos desferem o golpe fatal.

O roubado dirige os movimentos do ladrão e ambos cometem o roubo.

O Homem tem sua conta com todas as coisas e estas têm sua conta com o Homem. Esse intercâmbio segue sem interrupção.

[...] a memória do Tempo conserva sempre em dia as contas de sua relação com as dos seus contemporâneos e outros seres do Universo e os força a fazer um acerto num piscar de olhos, vida após vida, morte após morte.

[Excertos do Livro de Mirdad, de Mikhaïl Naimy (1889-1988]
* Mirdad era o oitavo passageiro da Arca de Noé.