A terrível epidemia que estamos vivendo é o testemunho das forças econômicas, sociais e ambientais desencadeadas pelo neoliberalismo, e de sua incapacidade de construir um futuro inclusivo*

As epidemias retornam de tempos em tempos para nos lembrar de nossa vulnerabilidade a doenças e poder. Em alguns meses, algo que parecia uma catástrofe distante transformou-se numa tragédia cotidiana.

Revela o despreparo dos governos de direita (populistas autoritários), que atacam a ciência e a saúde pública, levando os seus seguidores a não pensarem racionalmente e criando condições para a desinformação, estigma e caos que agora o mundo padece.

Para o historiador espanhol em epidemias, Marcos Cueto (27-03-2020)*, essa pandemia de coronavirus “é apenas a mais recente de uma triste sequência de epidemias” que começou na década de 1980 do século passado, quando “a maioria dos governos do mundo adotou o neoliberalismo e sua doutrina envenenada que proclamava uma redução drástica nos gastos públicos e o desmantelamento da intervenção estatal em programas sociais”.

Criou assim, a cultura em que o lucro estava acima de tudo e de todos; em que prevalecia o corte nos recursos humanos dos sistemas de saúde (nacionais e internacionais) e “onde um rosário de desastres da saúde, como AIDS, dengue, SARS, H1N1, Ebola, Zika e agora a epidemia que nos aflige foram banalizados”.

— “Las pandemias antes mencionadas surgieron o se agravaron por la discriminación, el deterioro del cambio climático, la violencia contra la naturaleza ejercida por fuerzas extractivas sin regulación y la negación de los derechos humanos, como el derecho a la salud de cualquier persona, que abierta o subrepticiamente glorificó el neoliberalismo. Estos llegaron con una trivialización de muertes y enfermedades evitables y la reproducción de estereotipos criminales contra las víctimas de las epidemias como las minorías sexuales, los pobres, los indígenas y las mujeres. La terrible epidemia que estamos viviendo es el testimonio no solo de las fuerzas económicas, sociales y ambientales que desató el neoliberalismo sino de su incapacidad de construir un futuro inclusivo” (Marco Cueto).