Da história pessoal à vigilância em massa
Sem privacidade não há garantia de igualdade, justiça, liberdade e democracia
Juan Matus, o mestre feiticeiro tolteca, que ensinou ao mundo o domínio da consciência, enfatizava na obra Journey to Ixtlan (Viagem a Ixtlan), de Carlos Castañeda (1972), que a privacidade nos deixa “livres dos pensamentos estorvantes dos outros”. Para o mestre, alimentar a história pessoal era como um convite a invasão da privacidade.
[...] nós só temos duas alternativas: ou consideramos tudo certo e real, ou não. Se adotarmos a primeira, acabamos caceteados mortalmente conosco e com o mundo. Se adotarmos a segunda e apagarmos a história pessoal, criamos uma névoa, um estado muito emocionante e misterioso, em que ninguém sabe de onde sairá o coelhinho, nem mesmo nós. Quando nada é certo, permanecemos alertas, sempre atentos.
Quando Matus ensinava, a privacidade tinha essa conotação xamânica de empoderamento pessoal; não havia internet e as redes sociais eram restritas ao rádio, o jornal, a TV, o correio, o telefone. A coleta de dados pessoais estava no começo.
Privacidade violada e vendida
Passados quase 50 anos, a privacidade deixa de ser uma preocupação individual para ser preocupação política, por seu aspecto massivo, discriminatório, abusivo e sem controle. Este é o tema central de ‘Privacidade é poder’ (Privacy is Power); um interessante livro da filósofa Carissa Véliz, professora do Instituto de Ética e Inteligência Artificial da Universidade de Oxford, lançado esta semana. Para ela, sem privacidade não há garantia de igualdade, justiça, liberdade e democracia.
A falta de privacidade ameaça nossa autonomia, nossa capacidade de governar a nós mesmos, como indivíduos e como cidadãos.
A confidencialidade não pode ser garantida quando tudo o que dizemos se transforma em dados que são coletados, analisados e vendidos.
Nesse livro, Véliz argumenta ser imperioso pensar nos dados pessoais como se fossem uma substância tóxica, porque de certo modo “eles estão envenenando nossas vidas, como indivíduos e como sociedades". Por isso, os dados pessoais devem ser regulamentados como se fosse uma substância tóxica, como o amianto.
O antigo ensinamento tolteca de preservar a privacidade está renovado.
» [...] se não tiver história pessoal, não há necessidade de explicações; ninguém fica zangado nem desiludido com seus atos. E, acima de tudo, ninguém o prende com seus pensamentos. «












