A banalização da morte é inaceitável
"Nada mais caro na vida que a doença e a estupidez”, escreveu Sigmund Freud, em 1913, prevendo os horrores da pandemia da gripe espanhola (1918-1920), que matou mais de 100 milhões de pessoas no mundo; no Brasil, 35 mil, entre elas o presidente da época, Rodrigues Alves (1848-1919).Encantado pelo 'discurso da estupidez', o Brasil está acostumando-se à multiplicação das mortes pelo Covid-19: quase 3 mil por dia, mais 370 mil óbitos até agora, mais de 60 mil novos casos, mais de 14 milhões infectados.
A estupidez, no dicionário, refere-se à ausência de discernimento, caracterizada por um posicionamento específico de algumas pessoas diante da vida, baseado em crenças.
No entendimento do psicanalista Mauro Mendes Dias (‘O discurso da estupidez’; ed. Iluminuras, 2021), esse discurso sem rosto e sem palavras está bem visível nas redes sociais, entre políticos, setores governamentais e dirigentes de coletivos e colegiados.
A comunicação está cada vez mais vociferante, marcada pelo ódio, deixando pouca possibilidade de diálogo. Acabo de constatar isso nas redes sociais, que primam pela redução da complexidade, da inteligência e da reflexão.
— O que há de cativante no discurso da estupidez é que este sabe bem mobilizar essa espécie de paixão que habita a coletividade, que é poder ficar cega e surda para tudo aquilo que importa.
O estúpido quer prometer absurdos e cultivar uma espécie de adoração da morte; trata-se, o tempo todo, de destruir. Seja uma ilusão de mudança, seja tudo aquilo que representa o patrimônio da humanidade, no sentido ecológico ou cultural.
Uma outra obra sobre o tema da estupidez é a da crítica literária estadunidense Michiko Kakutani (‘A Morte da Verdade’; ed. Intrínseca, 2018). A autora confirma que, aproveitando-se do relativismo cultural e refutando a ciência e o consenso, "uma legião de pessoas passou a ignorar ou derrubar qualquer noção de certeza e a professar suas verdades privadas (e mentiras públicas) pelos quatro cantos da internet".












