Um passado de lutas de muitos homens e mulheres escravizados

Novos atores negros vão aparecendo no movimento abolicionista brasileiro, que ressurgiu após 1821, em várias partes do País, extrapolando os terreiros e quintais, as senzalas, as oficinas, os mocambos.

No contexto do 13 de maio de 1888, quando a Princesa assinou o ato da abolição da escravatura, também havia protagonistas negros. Para que esse momento ocorresse, foram necessárias inúmeras lutas e pressões de ativistas como o jornalista, farmacêutico e escritor José do Patrocínio (1853-1905), o engenheiro André Rebouças (1838-1898) e o advogado autodidata, escritor e jornalista Luiz Gama (1830-1882), entre outros.

Uma Pátria Negra

No século anterior, a Confederação de Quilombos liderada pelo Rei Ambrósio, sob inspiração de Ganga-Zumba, por quase todo o tempo da mineração do ouro, dominou no Oeste de Minas (Campo Grande da Picada de Goiás e adjacências), causando fortes reações armadas do governo da Capitania.

Na capitania de Minas Gerais, havia começado o movimento abolicionista, enfraquecido no Palmares, com a morte de Zumbi (1655-1695). Durante mais de 50 anos, a Pátria Negra sofreu os mais cruéis ataques dos militares e das milícias oficiais, que dizimaram milhares de “escravos fugidos”, muitos marcados a fogo com a letra “F”.

Após sucessiva destruição de dezenas de seus mocambos, mantimentos e plantações, entre os anos de 1720 e 1782, ocorreu o grande ataque da Legião da Conquista, comandando por Inácio Corrêa de Pamplona, que pôs fim ao Quilombo do Ambrósio e à presença indígena no Campo Grande.

Na memória de luta dos negros no Brasil, inclui-se ainda o movimento republicano da Conjuração Mineira, que tinha como um de seus objetivos o fim da escravatura, o que causou a derrocada do projeto.

O fim da escravatura

O historiador e músico Amailton Azevedo, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), assinala a ressignificação do 13 de maio que vem ocorrendo nas últimas décadas, quando

[...] a historiografia brasileira e a historiografia afrobrasileira têm buscado pensar e problematizar o 13 de maio não apenas como uma vitória magnânima de Isabel, mas como uma virada de página importante porque, de fato, encerra a escravidão, acaba com a escravidão.

A historiadora Renata Figueiredo de Moraes, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) também reconhece essa mudança no significado da data:

— O fim da escravidão foi a vitória de um passado de lutas de muitos homens e mulheres escravizados e seus descendentes e de parte da sociedade que não compartilhava dos valores da escravidão. A data pode ser vista como um momento para relembrar essa luta, que acabou com a assinatura da lei, e que ao mesmo tempo iniciou outra batalha, a por direitos políticos, sociais e culturais — explica Moraes.