Não se trata de enfiar a cabeça no buraco, como a avestruz, quando sente medo, mas de dar um ‘timing’ nesse papo catastrófico.

Tenho ouvido muito isso: em breve, “o mundo vai acabar” numa “catástrofe climática”, em um “apagão digital” mundial, em “futuras pandemias” ou numa “guerra nuclear” robótica. E não há dúvidas de que essas coisas podem ocorrer; a gente sabe. É só ver como está a tensão geopolítica mundial e o ocorrido em outras eras.

Essa metáfora do fim iminente, no entanto, é uma fórmula ideológica da economia capitalista, na qual pouco importa as gerações futuras. Deixam de herança uma paisagem devastadora de ruína social e ecológica e uns poucos mais ricos e doentes.

Vozes contra-apocalípticas

— A narrativa do fim do mundo leva à desmobilização social e política, à inação — afirma Joanna Zylinska, filósofa e teórica da cultura (Universidade de Londres). É dela uma das vozes “contra-apocalípticas” que começam a ecoar por aí, levando a ideia da remobilização:

— Do tentar dar visibilidade a outro tom e outra forma de enfrentar as dificuldades e fragilidades, encarando a realidade da precariedade — comenta.

Diante desse “progresso infinito até o fim”, essa corrente está ganhando força, estimulada pela ideia de limite, de escassez e de um futuro de interconectividade.

“Os quatro homens do Apocalipse”, de Viktor Vasnetsov (1887).

Bem-vindos os contra-apocalípticos

O futuro não está decidido, há muito a se fazer (hoje e amanhã, e depois), embora tenhamos de conviver com as alegorias e hologramas sombrios dos nossos livros sagrados (da Bíblia ao Alcorão), que interiorizamos ao longo de milênios e destoam do novo tempo.

Creio que já estamos assistindo ao limiar de um novo relato, no qual enfatizaremos nossa sobrevivência individual, comunitária e planetária.