Tecnologia e isolamento moldam comportamentos e relações
A presença dos smartphones no cotidiano das pessoas deixou de ser apenas uma comodidade para se tornar um elemento estruturante das relações sociais, afetivas e até políticas. Com o mundo literalmente na palma da mão, milhões de usuários brasileiros passam em média três horas por dia imersos em jogos, apostas esportivas e redes sociais. Mas o impacto vai muito além do entretenimento: estamos entrando – ou já entramos – em verdadeiras “câmaras de eco ideológicas”.
A cientista social Alice Evans, pesquisadora do King’s College de Londres, alerta para o efeito das chamadas “bolhas digitais”, que dividem homens e mulheres em universos paralelos de informação e valores. “Cada um está fechado em sua bolha através dos smartphones, em câmaras de eco ideológicas separadas, e isso pode estar polarizando as coisas, inclusive politicamente”, aponta.
Inovações mais avançadas
Para Evans, essa separação se intensifica conforme os algoritmos oferecem conteúdos que reforçam visões já existentes, em vez de desafiar opiniões ou promover o diálogo. Enquanto as mulheres se empoderam com conteúdos feministas e progressistas, muitos homens consomem materiais que associam o avanço feminino ao declínio da figura masculina tradicional.
Esse fenômeno está diretamente ligado ao conceito de leapfrogging, termo da economia que descreve o salto de uma sociedade sobre estágios tecnológicos intermediários, adotando diretamente inovações mais avançadas. “Através do smartphone, as mulheres dão esse salto, assistindo a conteúdos feministas que ainda não vivenciam nos seus meios e adotando essas posturas”, explica Evans. “E, se os homens não fazem jus a isso, elas decidem não se casar.”
Realidades paralelas
A desigualdade de expectativas em relacionamentos também é reflexo direto dessa dinâmica. “As mulheres não querem viver a vida de suas mães e avós, presas em casa cuidando dos filhos ao lado de maridos que não cozinham nem fazem faxina”, diz a pesquisadora. Elas passaram a exigir mais, enquanto “os homens não entenderam que o comportamento deles precisa mudar”.
Essa desconexão não se limita à esfera íntima. O impacto se estende à política e à vida em sociedade. Evans observa que o conservadorismo atual, muitas vezes associado a lideranças como a de Jair Bolsonaro, antecede essas figuras públicas e cresce em espaços onde há forte presença evangélica – ambientes menos permeáveis ao feminismo e aos valores progressistas impulsionados pelas redes.
Em um mundo onde é possível escolher não apenas o que se consome, mas também quais ideias reforçar e quais evitar, a tecnologia tem criado realidades paralelas. E embora o acesso ao conhecimento seja um ponto positivo, a ausência de diálogo entre essas bolhas sociais e ideológicas representa um desafio crescente.
Como alerta Evans, “a tecnologia está superando os relacionamentos pessoais”. E a pergunta que fica é: será que estamos preparados para reconectar o que foi separado pelos algoritmos?
[Alice Evans, em entrevista a Juliana Arreguy/ Folha de S.Paulo, 16/05/2025] Ilustração: The New York Times (2024)
A cientista social Alice Evans, pesquisadora do King’s College de Londres, alerta para o efeito das chamadas “bolhas digitais”, que dividem homens e mulheres em universos paralelos de informação e valores. “Cada um está fechado em sua bolha através dos smartphones, em câmaras de eco ideológicas separadas, e isso pode estar polarizando as coisas, inclusive politicamente”, aponta.Inovações mais avançadas
Para Evans, essa separação se intensifica conforme os algoritmos oferecem conteúdos que reforçam visões já existentes, em vez de desafiar opiniões ou promover o diálogo. Enquanto as mulheres se empoderam com conteúdos feministas e progressistas, muitos homens consomem materiais que associam o avanço feminino ao declínio da figura masculina tradicional.
Esse fenômeno está diretamente ligado ao conceito de leapfrogging, termo da economia que descreve o salto de uma sociedade sobre estágios tecnológicos intermediários, adotando diretamente inovações mais avançadas. “Através do smartphone, as mulheres dão esse salto, assistindo a conteúdos feministas que ainda não vivenciam nos seus meios e adotando essas posturas”, explica Evans. “E, se os homens não fazem jus a isso, elas decidem não se casar.”
Realidades paralelas
A desigualdade de expectativas em relacionamentos também é reflexo direto dessa dinâmica. “As mulheres não querem viver a vida de suas mães e avós, presas em casa cuidando dos filhos ao lado de maridos que não cozinham nem fazem faxina”, diz a pesquisadora. Elas passaram a exigir mais, enquanto “os homens não entenderam que o comportamento deles precisa mudar”.
Essa desconexão não se limita à esfera íntima. O impacto se estende à política e à vida em sociedade. Evans observa que o conservadorismo atual, muitas vezes associado a lideranças como a de Jair Bolsonaro, antecede essas figuras públicas e cresce em espaços onde há forte presença evangélica – ambientes menos permeáveis ao feminismo e aos valores progressistas impulsionados pelas redes.
Em um mundo onde é possível escolher não apenas o que se consome, mas também quais ideias reforçar e quais evitar, a tecnologia tem criado realidades paralelas. E embora o acesso ao conhecimento seja um ponto positivo, a ausência de diálogo entre essas bolhas sociais e ideológicas representa um desafio crescente.
Como alerta Evans, “a tecnologia está superando os relacionamentos pessoais”. E a pergunta que fica é: será que estamos preparados para reconectar o que foi separado pelos algoritmos?[Alice Evans, em entrevista a Juliana Arreguy/ Folha de S.Paulo, 16/05/2025] Ilustração: The New York Times (2024)












