No cerne da democracia brasileira, onde a laicidade do Estado deveria ser um pilar inabalável, surge o Projeto de Resolução nº 71/2025, uma proposta que visa institucionalizar a "Bancada Cristã" na Câmara dos Deputados. Essa iniciativa, aprovada em regime de urgência em 22 de outubro de 2025 com 398 votos favoráveis, representa não apenas uma fusão perigosa entre religião e oportunismo político, mas um verdadeiro abuso de poder que ameaça os fundamentos da pluralidade religiosa e política no país.

Denominá-la de "Bancada Cristã" é, no mínimo, um escárnio com o povo brasileiro, que vive em uma nação constitucionalmente laica desde 1891. Uma designação mais apropriada, tanto bíblica quanto teologicamente, seria "Bancada do Pecado", como classifica o doutor sociólogo Valdinei Ferreira (Folha/ Cotidiano) , pois ela macula o sagrado ao servi-lo como ferramenta eleitoral. A Câmara dos Deputados, ao permitir a criação dessa representação política "besuntada com os óleos das religiões católica e evangélica", comete um pecado gravíssimo contra a fé e a democracia, frisa o sociólogo.

O projeto, de autoria de deputados como Gilberto Nascimento (PSD-SP) e Luiz Gastão (PSD-CE), prevê que a bancada tenha voz e voto no Colégio de Líderes, tempo de fala em sessões e até recursos públicos para sua operação. Essa estrutura formaliza uma frente que une evangélicos e católicos sob uma agenda conservadora de direita, mas o objetivo inconfessável vai além: associar o cristianismo a pautas ideológicas específicas, demonizando o pluralismo e instrumentalizando a crença para fins partidários.

A banalização do Sagrado

Como alertado por Frei Betto em artigo recente, essa bancada ameaça a democracia ao priorizar uma visão religiosa exclusivista em detrimento da separação entre Igreja e Estado.

Embora a justificativa oficial seja a "valorização da fé", trata-se, na verdade, de uma banalização do sagrado. Em um país onde mais de 80% da população se declara cristã, segundo dados do IBGE, essa bancada não representa a diversidade interna do cristianismo, que inclui progressistas, liberais e defensores de direitos sociais; mas, sim, uma ala reacionária que usa Deus como escudo para agendas antipluralistas. Tudo isso é combinado e "ungido" em nome de Deus, transformando o Parlamento em um púlpito eleitoral.

Críticos, como o deputado Tarcísio Motta (PSOL-RJ), questionam a constitucionalidade da proposta, argumentando que ela viola o princípio da laicidade e pode fomentar discriminação contra minorias religiosas, como as de matriz africana. De fato, relatos recentes de perseguição a terreiros em Santa Catarina ilustram como essa mistura pode incentivar intolerância, com policiais recomendando o fechamento de centros umbandistas sob pretexto de "inadequação".

Erosão da democracia

Esse abuso de poder não é isolado; ele reflete uma tendência global de populismo religioso, onde a fé é cooptada para mobilizar votos. No Brasil, com eleições municipais e gerais no horizonte, a bancada serve como plataforma para pastores e líderes eclesiásticos influenciarem legislações sobre temas como aborto, direitos LGBTQIA+ e educação sexual, sob o manto da "defesa de valores cristãos".

No entanto, como destacado em análises do Instituto de Estudos da Religião (ISER), a articulação dessa bancada formaliza o que já era informal: a dominação de narrativas conservadoras que marginalizam vozes dissidentes dentro do próprio cristianismo. O resultado? Uma erosão da democracia, onde o debate público é substituído por dogmas, e o Estado laico cede espaço a uma teocracia velada.

Em resumo, o Projeto de Resolução nº 71/2025 não eleva a fé; ele a rebaixa ao nível de moeda política. Para preservar a democracia e o verdadeiro espírito cristão – que prega amor, justiça e inclusão – é imperativo rejeitar essa "coisa". Caso contrário, o Brasil arrisca se tornar um palco onde o sagrado é profanado em nome do poder, e o povo, mais uma vez, paga o preço da hipocrisia institucional.