A Luz da Ermida dos Campos
No alto do morro da Gurita, onde o vento ainda carrega
o som de preces antigas e o cheiro de terra molhada,
erguia-se outrora uma ermida humilde, de adobe e tabatinga,
portal azul voltado ao nascente, como um olho aberto à esperança.
Guarita de 1738, depois ermida sem sino algum,
apenas cruzeiro lateral e imagens pequenas no altar singelo:
Santa Helena, São Francisco de Paula, Santo Antônio e São Sebastião
– santos que velavam os caminhos dos tropeiros, dos bandeirantes, dos errantes.
Ali o capitão-do-mato Francisco Ferreira Fontes
desceu do cavalo ao entardecer, as algemas pesadas na alma,
e libertou os cativos que trazia, rompendo a corrente da crueldade.
As águas do córrego da Batalha lavavam lepra e ódio; a argila branca curava feridas.
Choveu quando o povo pediu chuva; secou quando implorou estio.
Os candidé, tacapeiros do sul, deixaram de comer carne humana
e de oferecer mortos aos bichos do mato – mudados por um sopro invisível
que descia daqueles campos conhecidos, então, pelos Milagres da Ermida.
O major João Ferreira da Silva, de punho fechado e coração endurecido,
subiu o morro em dia de ira e encontrou Santa Helena abandonada.
Levou-a consigo, e na mesma noite o arrependimento atravessou-lhe o coração;
ao amanhecer, era outro homem – manso, generoso, humilde.
Tentou reconstruir a ermida no alto, mas as chuvas desmancharam o sonho.
Então, com escravizados livres companheiros, com o filho Evaristo ao lado,
desmontou a velha ermida e a levou para sua fazenda, para o Lavapés,
onde o portal azul ainda resiste, guardião de uma memória que não morre.
O tempo cobriu de mato o cume da Gurita;
ruínas se fizeram silêncio, silêncio se fez espera.
Mas o mesmo vento que outrora trouxe conversão e cura
agora anuncia a ascensão de uma cruz nova, de ferro e luz.
Setenta e três metros e oitenta centímetros de estrutura aberta ao céu,
Cruz do Espírito Santo de Todos os Povos,
erguida exatamente onde a ermida se dissolveu no chão sagrado
– não para substituir, mas para continuar o milagre.
Ela não é de pedra nem de madeira antiga,
mas de aço entrelaçado, insinuando-se na paisagem do Oeste,
visível de longe como a guarita branca foi outrora,
farol de paz para todos os povos do sertão.
Sobre as cinzas da guarita, ermida, conversões e curas,
ela se ergue luminosa, convidando todos os povos
a subir o morro e sentir, no peito, o mesmo sopro
que dobrou capitães, curou hansenianos e mudou vidas.
Que a Cruz de Todos os Povos seja, pois,
o novo capítulo aberto no mesmo livro antigo:
Deus obedece aos que o servem com sinceridade de coração,
e os campos da Ermida nunca deixarão de ser terra de milagres.
Poema dedicado à memória dos que rezaram, mudaram e sonharam ali
o som de preces antigas e o cheiro de terra molhada,
erguia-se outrora uma ermida humilde, de adobe e tabatinga,
portal azul voltado ao nascente, como um olho aberto à esperança.
Guarita de 1738, depois ermida sem sino algum,
apenas cruzeiro lateral e imagens pequenas no altar singelo:
Santa Helena, São Francisco de Paula, Santo Antônio e São Sebastião
– santos que velavam os caminhos dos tropeiros, dos bandeirantes, dos errantes.
Ali o capitão-do-mato Francisco Ferreira Fontes
desceu do cavalo ao entardecer, as algemas pesadas na alma,
e libertou os cativos que trazia, rompendo a corrente da crueldade.
As águas do córrego da Batalha lavavam lepra e ódio; a argila branca curava feridas.
Choveu quando o povo pediu chuva; secou quando implorou estio.
Os candidé, tacapeiros do sul, deixaram de comer carne humana
e de oferecer mortos aos bichos do mato – mudados por um sopro invisível
que descia daqueles campos conhecidos, então, pelos Milagres da Ermida.
O major João Ferreira da Silva, de punho fechado e coração endurecido,
subiu o morro em dia de ira e encontrou Santa Helena abandonada.
Levou-a consigo, e na mesma noite o arrependimento atravessou-lhe o coração;
ao amanhecer, era outro homem – manso, generoso, humilde.
Tentou reconstruir a ermida no alto, mas as chuvas desmancharam o sonho.
Então, com escravizados livres companheiros, com o filho Evaristo ao lado,
desmontou a velha ermida e a levou para sua fazenda, para o Lavapés,
onde o portal azul ainda resiste, guardião de uma memória que não morre.
O tempo cobriu de mato o cume da Gurita;
ruínas se fizeram silêncio, silêncio se fez espera.
Mas o mesmo vento que outrora trouxe conversão e cura
agora anuncia a ascensão de uma cruz nova, de ferro e luz.
Setenta e três metros e oitenta centímetros de estrutura aberta ao céu,
Cruz do Espírito Santo de Todos os Povos,
erguida exatamente onde a ermida se dissolveu no chão sagrado
– não para substituir, mas para continuar o milagre.
Ela não é de pedra nem de madeira antiga,
mas de aço entrelaçado, insinuando-se na paisagem do Oeste,
visível de longe como a guarita branca foi outrora,
farol de paz para todos os povos do sertão.
Sobre as cinzas da guarita, ermida, conversões e curas,
ela se ergue luminosa, convidando todos os povos
a subir o morro e sentir, no peito, o mesmo sopro
que dobrou capitães, curou hansenianos e mudou vidas.
Que a Cruz de Todos os Povos seja, pois,
o novo capítulo aberto no mesmo livro antigo:
Deus obedece aos que o servem com sinceridade de coração,
e os campos da Ermida nunca deixarão de ser terra de milagres.
Poema dedicado à memória dos que rezaram, mudaram e sonharam ali
– e àqueles que hoje erguem a cruz para que a história continue.














