Quando as grandes potências começam rufar seus tambores de guerra, o barulho costuma ser tão ensurdecedor que abafa completamente o grito de quem nem sabe direito onde fica o mapa do conflito, muito menos por que ele começou.

A escalada entre Israel, Estados Unidos e Irã já ultrapassou há tempos a discussão sobre território, influência regional ou segurança estratégica. O que estamos vendo agora é uma crise humanitária de proporções globais, que escolhe suas vítimas principalmente pela condição socioeconômica.

Enquanto líderes em salas climatizadas debatem sanções, mísseis de precisão e estratégias de contenção, lá fora, no mundo real, o impacto chega rápido e cruel direto no prato de comida de milhares de famílias.

A matemática é simples e implacável. A instabilidade no Oriente Médio – especialmente após os ataques recentes e as retaliações – fez o preço do barril de petróleo disparar, superando os US$ 100 em vários momentos nas últimas semanas. Com isso, o frete marítimo internacional encarece imediatamente. Tudo o que viaja de navio (e é muita coisa) fica mais caro. Fertilizantes, combustíveis agrícolas, transporte de grãos, insumos industriais... a cadeia inteira sente o choque.

O resultado é a alta nos preços de itens básicos: arroz, feijão, pão, óleo de cozinha, carne, produtos de higiene etc. Para famílias de classe média em países desenvolvidos, isso pode significar apenas um aperto no orçamento mensal. Para milhões de pessoas em nações em desenvolvimento (África, Ásia e América Latina, principalmente), significa a diferença entre comer ou passar fome.

Armas e miséria

Enquanto bilhões são investidos em tecnologia de destruição e em operações militares, os programas de assistência social, estoques de segurança alimentar e ajuda humanitária perdem prioridade nos orçamentos globais. É uma inversão de valores que custa vidas.

O filósofo e poeta francês Paul Valéry (1871-1945) capturou essa tragédia com precisão dolorosa:

A guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam se matam, por decisão de velhos que se conhecem e se odeiam, mas não se matam.

Não dá para fingir que isso é assunto distante. A geopolítica pode parecer um tabuleiro de xadrez jogado em capitais longínquas, mas o sofrimento que ela provoca está na nossa frente.

Quem mais sente o peso de uma fronteira fechada, de um míssil lançado ou de um estreito bloqueado não é o general no centro de comando nem o analista no think tank. É o pai ou a mãe de família que vê o salário evaporar antes do fim do mês, que reduz o arroz do almoço das crianças para pagar a conta de luz, que acorda com a angústia de não saber se amanhã terá o que colocar na mesa.

A paz verdadeira não é apenas o silêncio das bombas ou a mudança de regimes. É a condição básica para que as pessoas mais vulneráveis possam viver com dignidade, sem ter que escolher entre remédio, comida ou revolta (por não ter os dois).

Enquanto os tambores continuarem batendo, precisamos ouvir e amplificar o outro som. O som das vozes que pedem racionalidade, diplomacia e, acima de tudo, humanidade. Porque, no final das contas, a conta da guerra sempre chega para quem menos pode pagar.

__________________________
Foto: UNAMA /Fraidoon Poya