Às vezes, basta olhar para o noticiário para sentir o absurdo da nossa condição. Enquanto foguetes decolam rumo a Lua e telescópios capturam luz de bilhões de anos atrás, soldados e civis morrem no deserto por causa de petróleo. Dois cenários que parecem pertencer a épocas diferentes acontecem no mesmo planeta, na mesma hora.

De um lado, a velha lógica da escassez com seus tanques rolando no deserto, fronteiras sendo traçadas a sangue, nações se digladiando pelo controle de um combustível fóssil que sabemos está no fim. O petróleo deixou de ser apenas energia há muito tempo. Virou poder, hegemonia, sobrevivência, violência. É a consciência fragmentada em ação; aquela que ainda vê o mundo como polaridade, “nós contra eles”, como se o Ser pudesse ser dividido sem se ferir.

Do outro lado, a mesma espécie que briga por poços de óleo constrói estações espaciais, envia sondas a asteroides e sonha em pisar em Marte. O astronauta que flutua na órbita da Terra e da Lua olha para baixo e não vê bandeiras. Vê um único planeta azul, frágil, sem fronteiras. Ali, por alguns instantes, a consciência se expande. O Ser ensaia olhar para si mesmo de fora. Parece contradição, mas é transição.

Pela lente da Totalidade

Estamos vivendo exatamente o momento descrito na filosofia da Totalidade do Ser: uma humanidade ainda carregando impulsos tribais enquanto seu intelecto já toca as bordas do cosmos. Fazemos guerra por recursos finitos ao mesmo tempo em que investigamos o infinito. Repetimos padrões ancestrais de disputa e, no mesmo fôlego, mapeamos galáxias.

Essa defasagem é dolorosa e reveladora. O avanço tecnológico não vem acompanhado, automaticamente, de um avanço ético ou espiritual. Podemos orbitar a Lua e continuar presos à lógica da separação; enviar robôs a outros mundos e ainda tratar o “outro” aqui como inimigo.

A verdadeira questão não é se vamos colonizar o Sistema Solar. É se levaremos conosco a mesma mentalidade que transformou o Oriente Médio num tabuleiro sangrento. Porque o infinito não cura a fragmentação, apenas a amplifica.

A filosofia da Totalidade nos lembra que as guerras são sintomas de uma consciência que ainda não se reconheceu una. E que a exploração espacial é técnica, mas, ao mesmo tempo, é um ensaio de transcendência. O salto decisivo, porém, não acontecerá quando pisarmos na Lua ou em Marte, e, sim, quando finalmente compreendermos, aqui na Terra, que não existe “outro”, apenas o Ser se experimentando em diferentes graus de densidade.

Enquanto isso, seguimos sendo essa criatura estranha, ao mesmo tempo primitiva e cósmica, brigando por petróleo enquanto aprende, ainda tateando, a habitar o infinito.

______________________
Fotos: Ibrahim Amro/AFP e Nasa.