A desigualdade no Brasil está na conta bancária, no próprio corpo e no tempo que cada brasileiro tem para viver.

Segundo estudo do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) em parceria com o Cedeplar/UFMG, a diferença na expectativa de vida entre os grupos mais favorecidos e os mais vulneráveis ultrapassa 14 anos.

São mais de cinco mil dias de vida que separam, por exemplo, um homem negro nascido em Alagoas de uma mulher branca nascida em Santa Catarina.

Enquanto o primeiro tem, em média, 66,7 anos de vida pela frente, a segunda pode chegar a 80,9 anos.

Três causas explicam esse abismo, segundo a pesquisa. Gênero é responsável por 56% da diferença; Raça/Cor por 23% e Território (região/estado), por 21%. Estes números não são apenas estatísticos. Eles revelam como o Brasil ainda é um país que distribui oportunidades e riscos de forma profundamente desigual.

O peso do gênero

Em praticamente todos os países do mundo, as mulheres vivem mais que os homens. No Brasil não é diferente. Os homens pagam um preço alto por entrarem mais cedo no mercado de trabalho, se exporem mais a riscos e adotarem comportamentos mais nocivos (álcool, fumo, direção perigosa). Mas, no caso brasileiro, há a violência, um agravante brutal.

Quase metade da diferença de expectativa de vida entre homens negros e brancos se deve a causas externas, especialmente homicídios. Jovens negros entre 15 e 34 anos são as principais vítimas. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que 79% das vítimas de homicídio no país são negras e 91% são homens.

Raça e território: uma combinação letal

A cor da pele e o lugar onde se nasce seguem determinando fortemente as chances de chegar à velhice com saúde. Os piores indicadores para a população negra estão concentrados no Norte e Nordeste. Já Santa Catarina aparece consistentemente entre os melhores resultados, independentemente da cor.

No caso das mulheres, a desigualdade racial aparece de outra forma: maior incidência de doenças cardiovasculares, câncer e problemas respiratórios, especialmente entre 35 e 59 anos.

O professor Cássio Turra (Cedeplar/UFMG) explica que redes de saneamento precárias, distância dos centros de saúde de qualidade e maior informalidade no mercado de trabalho ajudam a explicar por que o Norte e Nordeste ainda apresentam piores indicadores, mesmo com avanços nas últimas décadas.

Por que isso importa?

Muitas vezes olhamos apenas para a média nacional e achamos que o problema está "melhorando". Mas as médias escondem realidades insuportáveis. Como bem destacou o diretor do IMDS, Paulo Tafner, esse tipo de análise é fundamental para tirar o debate da abstração e direcionar políticas públicas com precisão em saúde, educação, segurança e saneamento.

Não adianta ter um SUS universal se em algumas regiões o acesso efetivo à emergência médica ainda é uma loteria geográfica. Não adianta ter programas sociais se a violência continua dizimando a juventude negra antes mesmo que ela chegue à vida adulta.

Reflexão final d’A Página

A expectativa de vida é um dado demográfico e indicador poderoso de quanto uma sociedade valoriza (ou não) a vida de cada um de seus cidadãos. Enquanto houver um jovem negro em Alagoas com 14 anos a menos de perspectiva de vida do que uma mulher branca em Santa Catarina, o Brasil continuará sendo um país injusto, não apenas economicamente, mas existencialmente.

Reduzir essa desigualdade é uma questão de justiça social e de civilização.

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