No Brasil, especialmente no Nordeste e no Sudeste, uma tendência preocupa quem acompanha a cultura: prefeituras e organizadores de festas pagam cachês milionários para atrações nacionais famosas, enquanto artistas da própria região recebem valores muito baixos. Essa escolha não afeta só o bolso dos músicos, dançarinos e grupos tradicionais. Ela ameaça a identidade cultural das cidades.

O resultado é uma “padronização”. As festas ficam parecidas em qualquer lugar do país, perdendo o sabor local.

Dura realidade

Essa realidade sufoca o ecossistema cultural. Artistas locais muitas vezes recebem apenas o suficiente para cobrir transporte e ensaio. Sem apoio, muitos desistem da carreira ou trabalham na informalidade. A transmissão de saberes tradicionais – cantigas, danças e artesanato – corre risco de desaparecer. Além disso, oficinas, editais e manutenção de espaços culturais ficam sem verba.

O problema piora porque grande parte desses megaeventos é financiada com dinheiro público. O que deveria apoiar a cultura da cidade acaba enriquecendo grandes escritórios de shows nacionais. “Cultura não é só entretenimento de massa, é patrimônio imaterial”, alertam especialistas. Quando a comunidade não se vê mais nas próprias festas, ocorre uma espécie de amnésia cultural.

Recursos para mudar

Para mudar esse quadro, é preciso fazer cumprir o Plano Municipal de Cultura e fortalecer o Conselho Municipal de Cultura, que deve fiscalizar os gastos e aprovar os planos de grandes eventos.

A resistência existe. Gestores preferem o “dividendo eleitoral” de um show lotado, que dá visibilidade imediata, em vez de investimentos silenciosos de longo prazo. Por isso, é preciso transformar as regras do Plano Municipal de Cultura em obrigações reais, com fiscalização do Conselho, da Câmara Municipal, Ministério Público e Tribunal de Contas, nessa ordem.

Equilibrar o poder de atração das grandes estrelas com a sobrevivência da cultura local é um desafio. Mas, sem valorizar quem produz arte na base, as cidades correm o risco de perder sua própria história e identidade. A cultura forte nasce de dentro para fora e merece ser prioridade no orçamento público.

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Foto: Palco em Jaguariuna SP / Reprodução: Instagram