No último mês, um velho conhecido da meteorologia voltou a ser o centro das atenções nos noticiários e nas conversas: o El Niño. Embora o nome pareça inofensivo – "o menino", em espanhol – o fenômeno é um verdadeiro gigante quando se trata de mudar o clima em todo o planeta.

Mas, afinal, por que um aquecimento nas águas de um oceano tão distante de nós tem o poder de mexer tanto com o nosso dia a dia, desde o preço do dos alimentos até a conta de luz?

Para entender o El Niño, precisamos olhar para o Oceano Pacífico Equatorial. Em anos normais, ventos constantes sopram de leste para oeste, empurrando a água quente da superfície em direção à Ásia e permitindo que águas frias e cheias de nutrientes subam na costa da América do Sul. Quando o El Niño entra em cena, esses ventos enfraquecem. Sem essa barreira, a enorme piscina de água quente do Pacífico se desloca para o leste, acumulando-se perto da costa sul-americana.

Essa mudança na temperatura da água funciona como um gigantesco motor térmico que desregula a atmosfera global. O resultado é uma reação em cadeia de extremos climáticos.

Um planeta em descompasso

O impacto mais imediato é sentido nos termômetros mundiais. Historicamente, os anos sob forte influência do El Niño são os mais quentes já registrados pela humanidade. O calor armazenado no oceano é liberado para a atmosfera, funcionando como um aquecedor ligado no máximo.

Contudo, são os extremos de chuva e seca que mais assustam pelas suas diferenças regionais. Enquanto o Sul do Brasil e a costa oeste da América do Sul enfrentam tempestades severas e enchentes históricas, a Região Norte e o Nordeste sofrem com a falta crônica de chuvas. Na Ásia e na Austrália, o cenário também muda para uma seca implacável, elevando o risco de incêndios florestais devastadores.

O peso no bolso e na mesa

As consequências desse descompasso não demoram a chegar às pessoas. A agricultura é a primeira a sentir o golpe. No Brasil, a seca na Amazônia e no Matopiba (região dos estados do Maranhão, Tocantins, Piaui e Bahia), prejudica safras importantes, enquanto o excesso de chuvas no Sul atrasa colheitas e estraga plantios de hortaliças. O preço dos alimentos sobe rapidamente nos supermercados.

A infraestrutura das cidades também é posta à prova. Além dos deslizamentos frequentes, enchentes destroem estradas e pontes, exigindo milhões em reconstrução. Na saúde pública, o acúmulo de água das chuvas torrenciais facilita a proliferação de mosquitos transmissores de doenças, enquanto o tempo seco e as queimadas aumentam os problemas respiratórios nos grandes centros.

O El Niño nos lembra da profunda conexão entre o homem, o oceano e a atmosfera. Compreender suas dinâmicas não é apenas uma tarefa para cientistas, mas uma necessidade urgente para que governos e cidadãos se preparem e minimizem os danos de um planeta cada vez mais desafiador.

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       ·► Boletim Climático do El Niño 2026