O rádio em Divinópolis foi um veículo de entretenimento que atuou como o verdadeiro cordão umbilical da modernidade, conectando o Oeste mineiro à ordem mundial e rompendo o isolamento geográfico que, por séculos, definiu o arraial. Em 2026, celebrar os 80 anos da radiodifusão e o lançamento da obra de Flávio Flora é um ato de preservação estratégica. Em uma cidade que hoje opera com um orçamento histórico de 1,62 bilhão de reais e recupera seus espaços verdes, como o Parque Ecológico Gafanhoto municipalizado em 2025, revisitar o rádio é entender os alicerces da nossa identidade urbana.

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Transcrição da Entrevista d’A Página com o jornalista Flávio Flora, autor do website Isto é Divinópolis - 80 anos de rádio.

A Página: "Isto é Divinópolis!" Com esta saudação clássica que ressoa nas dobras do tempo, iniciamos nossa jornada. Hoje, navegamos o éter da memória com o homem que mapeou nossa paisagem sonora: o jornalista e historiador Flávio Flora. Ele nos traz a obra "Isto é Divinópolis – 80 Anos de Rádio", um tributo que vai muito além da nostalgia. Flávio, seu livro resgata o título do emblemático programa de 1968, produzido por José Lopes Filho e narrado por Antônio Carlos Pereira. Por que essa escolha para batizar a sua "história social da comunicação"?

O título é uma ponte direta com a essência da cidade capturada entre 1968 e 1969. Recuperar essa expressão é reafirmar que a história de Divinópolis não é estática; ela vibra nas vozes e nas transformações captadas pelos microfones. O livro não é apenas uma cronologia, mas uma tentativa de mostrar como o rádio deu contorno ao que somos. É, em essência, a reconstrução da nossa "sala de visitas" sonora.

Pretendemos transcender o registro empresarial para se tornar uma análise da evolução tecnológica e social da região. Ela propõe que uma torre de rádio é, na verdade, um monumento às mudanças coletivas.

A Página: Flávio, em sua obra, o rádio deixa de ser um objeto e torna-se uma lente. Por que usar o microfone para observar fenômenos tão distintos quanto as enchentes do Itapecerica, a ascensão política de JK e a odisseia do homem à Lua?

Porque o rádio foi a nossa primeira janela para o mundo. A obra se sustenta em três eixos: a evolução tecnológica da radiodifusão, a maturidade empresarial e a própria história urbana vista pelos olhos – ou melhor, ouvida pelos ouvidos – da rádio. Ao adotar a "história social da comunicação", buscamos entender como a comunidade sustenta e é moldada pelo meio. O rádio não apenas noticiou a chegada do homem à Lua ou as crises locais; ele traduziu esses eventos para a lógica divinopolitana, conferindo-lhes um significado que só nós poderíamos entender.

Antes das ondas eletromagnéticas, o progresso chegou pelos trilhos. A transição do arraial para polo regional foi pavimentada por um racionalismo que encontrou terreno fértil no entroncamento ferroviário.

A Página: Flávio, o livro recua até a "Passagem da Itapecerica". Gostaria que você falasse sobre a etimologia da "Pissirica" – esse caminho de pedra escorregadia – e como a chegada da EFOM em 1890 rompeu o isolamento dos antigos moradores.

A origem é o tupi ita-pe-y-cerica , o vau liso que alertava os viajantes. Mas o grande divisor foi a Estrada de Ferro Oeste de Minas. Ela trouxe o "trem do sertão", e com ele, um contingente de ferroviários que introduziu o racionalismo e o positivismo em uma sociedade até então rural e tradicionalista. Essa diversidade religiosa e de costumes – com maçons, protestantes e espíritas – preparou o terreno intelectual para o rádio. É impossível falar de modernidade sem mencionar o legado de Manoel Fernandes Teixeira e Maria Alves Ferreira, mas é na "Vila Operária" e na "Esplanada" que a lógica espacial da cidade começou a mudar, trocando as ruelas curvas pela geometria das avenidas modernas.

A fundação da ZYH-2 em 1946 por Jovelino Rabello e José Puntel Sobrinho foi um ato de audácia técnica em um cenário de recursos escassos, marcando o nascimento da voz regional.

A Página: Flávio, o nascimento da Rádio Cultura em 1946 foi um marco, mas o incêndio de 1951 é uma das passagens mais tocantes do livro. Como esse evento, descrito como "trágico e suspeito", afetou o emocional da cidade?

Foi um trauma coletivo. A rádio era o orgulho local, e ver a discoteca popular de 1946 e os equipamentos reduzidos a cinzas chocou a sociedade. A destruição da rpádio causou um vazio profundo, mas o renascimento da emissora provou a resiliência de Jovelino Rabello (escrito com dois 'l's, como dita a tradição) e revolta de figuras como Pedro X. Gontijo, que via na cultura o motor da civilidade. A rádio "renasceu das cinzas" com uma força profissional que pavimentou o caminho para a era tecnológica que viria a seguir.

A transição para o rádio tecnológico e empresarial marca a maturidade da comunicação local, consolidando o rádio como um pilar da democracia regional.

A Página: Como você avalia o impacto da gestão de Mayrinck Pinto de Aguiar e Adelci Mattar? De que forma a visão deles transformou a Cultura AM na vanguarda da Castelo FM?

Eles foram os arquitetos da profissionalização. Saímos do modelo artesanal para uma gestão empresarial de fôlego regional. O rádio tornou-se um fórum democrático e um baluarte do jornalismo esportivo e noticioso. É fundamental destacar aqui a curadoria de Mayrinck Pinto de Aguiar Jr., que preservou o acervo histórico – a nossa "memória de papel e fita" — permitindo que este livro fosse escrito. O Sistema MPA não apenas acompanhou a tecnologia; ele antecipou a adaptação do rádio à era digital, mantendo a relevância em um mundo hiperconectado.

A Página: Para encerrarmos, Flávio, o livro cita Frei Bernardino Leers: "A felicidade do povo do Divino depende mais da solidariedade do que do enriquecimento". Como o rádio deu voz a esses "Joãos Ninguém" e promoveu essa união?

O rádio é a tecnologia da proximidade. Ele promove a solidariedade ao dar voz aos anônimos – os construtores silenciosos da cidade. Nas enchentes, nas crises e nas festas, o rádio foi o ponto de convergência das ideias e do socorro mútuo. A felicidade, como disse o Frei Berardino, reside na democratização das mentes e na participação leal, algo que as ondas moduladas e o digital continuam a fazer.

A Página: Para você que deseja conhecer esse trabalho, "Isto é Divinópolis – 80 Anos de Rádio" é possível acessá-lo pelo website ou em formato de livro virtual, na plataforma Yumpu. Vamos mergulhar nessa história.

Flávio, muito obrigado. Encerramos reforçando que a história não tem fim, e enquanto houver uma voz no ar, Divinópolis continuará a se ouvir. Até a próxima.