Ela não chega de repente.
Primeiro, manda um recado
pelas frestas do tempo.

É a cigarra que ensaia, no fim da tarde,
seu canto comprido debaixo das árvores.
É o céu que se abre mais azul
e o calor que, mansamente,
volta a pousar sobre os telhados.

Depois vêm as andorinhas,
como se trouxessem nas asas
a notícia de outros céus.
Voltam aos beirais, às praças,
aos fios atravessados sobre as ruas,
e fazem do próprio voo
uma forma de reencontro.

Nos quintais, os sabiás acordam mais cedo.
Há passarinhos por toda parte,
um alvoroço miúdo entre folhas e galhos,
chamados que respondem a chamados,
ninhos sendo feitos,
penas carregando pequenos destinos.
A natureza se reúne em segredo
para continuar a vida.

E então floresce.

Primeiro uma flor esquecida no mato,
depois outra no barranco,
outra no jardim,
outra perdida entre pedras e capim.
Como se a terra mineira,
depois de meses guardando silêncio,
abrisse devagar suas mãos
e devolvesse ao mundo
as cores que havia guardado.

Nas serras, a primavera chega pela luz.
Desce pelas encostas,
escorre pelos vales,
ilumina o verde novo das árvores
e repousa sobre os caminhos.

No fim da tarde,
o horizonte se incendeia.
Vermelho, laranja, dourado,
cores que Minas conhece bem,
porque parecem nascer da própria terra.
As montanhas ficam em silêncio,
recortadas contra o céu,
e por um instante
parecem maiores que o tempo.

É nessa hora que a gente percebe
que a primavera é a nova estação
e um acontecimento da alma.

Ela vem com cheiro de mato,
com o rumor das águas,
com o canto das aves,
com a cigarra escondida na sombra,
com o voo ligeiro das andorinhas
e a algazarra dos passarinhos
que procuram abrigo para os seus ninhos.

Vem também com a chuva ainda incerta,
com o chão esperando,
com o calor crescendo devagar,
com aquela promessa mineira
de que logo haverá café passado,
quitandas, prosa na varanda
e uma tarde inteira para olhar a serra.

Porque aqui, no interior de Minas,
a primavera anuncia seu nome.

A gente sabe que ela chegou
quando a passarada se agita,
quando a cigarra canta mais alto,
quando o vento muda de cheiro,
quando o verde se refaz
e quando, sobre os vales,
o entardecer fica bonito demais
para ser apenas fim de dia.

Então a vida, que parecia recolhida,
volta a chamar pela vida.

E Minas, entre serras e horizontes,
floresce outra vez.